Rio, 21.07.96
Prezado Acir, saúde e paz.
Respondo sua carta de 12 do corrente.
A correspondência com os amigos não representa peso para mim. Apesar dos 85 anos completados, continuo em atividade, agora, no combate à última praga que nos chega, o neoliberalismo.
A relação entre o ISEB e Paulo Freire, como a minha relação com o trabalho dele existiu de fato. Não participo da posição de Vanilda Paiva em relação a ele, apesar da consideração que tenho por ela.
Não espanta a sua dificuldade em encontrar as minhas obras. Elas estão esgotadas, na maior parte e o mercado editorial sofre a crise imposta pelo neoliberalismo. Com um pouco de paciência, creio que voce conseguirá completar a sua coleção.
Cláudio Giordano, editor benemérito e audacioso, gostaria de reeditar a História Nova mas as dificuldades são insuperáveis. A opinião do professor, que voce resume, é uma opinião: nada tem a ver com o que escrevi.
O plano econômico de FHC é uma enfermidade universal; e a Revolução brasileira vai avançar, apesar dele. Há uma ala da burguesia que, ligada ao mercado interno principalmente tem interesses no nacionalismo. E por isso vem sendo esmagada.
Abraços,
Nelson.
terça-feira, 29 de novembro de 2011
Nelson Werneck Sodré - o que é História
Rio - 27.09.93
Prezado Acir da Cruz Camargo,
saúde e paz. Respondo sua carta de 16 do corrente. Fico muito satisfeito em saber de sua pesquisa sobre a minha obra. Grato por isso. A leitura dos autores que fizeram críticas à minha obra e ao ISEB é também merecedora de estima. Já tive a oportunidade de escrever que são os nossos adversários, adversários das nossas idéias, que fornecem o nosso verdadeiro perfil, justamente porque destacam o que não somos, o que é tão importante quanto o que somos. Respondo por isso com prazer ao questionário que acompanha a sua carta, ponto por ponto. Antes que me esqueça: o livro sobre populismo já foi encontrado e remete-lo-ei na próxima semana. Estou dependendo apens da pessoa que ficou de me trazer em casa exemplares desse livro. E vamos ao questionário.
1. O fato de autores da USP (só conheço um, aliás) me acusarem de seguir uma linha esquemática e estalinista não tem, para mim, a menor significação. Corresponde, apenas, a uma posição negativa que faz parte da luta ideológica. Nós, no ISEB, não postergávamos a luta de classes, absolutamente. O ISEB tinha vários professores e, conquanto, depois de grave crise, preponderasse ali uma linha marxista e nacionalista, a verdade é que ela comportava variantes. Alguns críticos, anti-isebianos por vários motivos, estavam mais à esquerda do que os isebianos, acusavam-nos, a nós do ISEB, de não sermos suficientemente esquerdistas. Acontece que eles, os críticos, não eram marxistas. Não fomos, pois, revisionistas, muito ao contrário. Voce pergunta: "Por que um marxista, num dado momento, deixa de pensar a luta de classes e sim uma aliança de classes". Ora, isso não deriva de desejos; deriva da realidade. Corresponde à necessidade de estabelecer aliança com uma classe para derrotar a outra, aquela que, na fase é, é a principal inimiga. Isso acontece com frequência na História e não depende apenas da vontade das pessoas.
2. Como conciliávamos, no ISEB, eu e os companheiros, a questão da luta de classes com a aliança com a burguesia nacional, naquela fase para enfrentar o imperialismo? O inimigo principal era o imperialismo. Os nossos críticos desejavam que, por fidelidade a um princípio teórico, abandonássemos a luta ou nos isolássemos. Havia, na burguesia nacional, contradições com o imperialismo. Isso nos aproximava dela; ou, antes, ela se aproximava de nós. Não me recordo das colocações do companheiro que escreveu Consciência e realidade nacional, livro importante que precisa ser lido com senso crítico. Claro está que jamais entendemos a aliança como esquecimento de que há uma exploração do trabalho, luta de classes. A aliança da fase não importava em ignorar isso ou negar.
3. Temos, realmente, a mais retrógrada burguesia, na História. Isso, entretanto, não importa em negar, na sua parcela nacional, contradições com o imperialismo, que é um dado da realidade. Enquanto ela aceita tais contradições, tem condições de lutar com o trabalhador, não para estabelecer o socialismo, mas para enfrentar, transitoriamente, um inimigo comum.
4. Sempre pensei que as teorias que defendi, na teoria e na prática, eram, e são aplicáveis a todos os povos latino explorados do mundo, particularmente aos latino-americanos.
5. O Fascismo cotidiano é um livro, editado em São Paulo, em 1990, pela editora Oficina de Livros (Av. Brigadeiro Luiz Antonio, 469, s. 83, cep 01317-001, São Paulo).
6. Não tenho notícias de recentes comentários, resenhas ou críticas ao meu livro Formação histórica do brasil. Isto faz parte da política de abafar pelo silêncio, usual entre nós, na luta ideológica.
7. Não tive formação universitária em História. Sou, nela, um autodidata. No meu tempo, não existiam estudos universitários de História. Não havia faculdades de Filosofia, nem mesmo Universidades, nem Institutos de Letras. E a vida militar, depois, me impediu que, mesmo adulto ou velho, me matriculasse nas que apareceram. Os de formação acadêmica me criticam e alegam essa ausência de diploma para me negar. Na verdade, o ensino de História, nas Universidades, está muito distante daquilo que eu aceito como História. É uma forma de alienação. Já dei cursos em diversas Universidades, cursos avultos. Nunca exerci a cátedra universitária, nem desejo exercê-la.
É o que me acode para responder aos quesitos propostos. Fico ao seu dispor para mais. Um abraço ao Pedro, Outro em voce do
Nelson Werneck Sodré
Prezado Acir da Cruz Camargo,
saúde e paz. Respondo sua carta de 16 do corrente. Fico muito satisfeito em saber de sua pesquisa sobre a minha obra. Grato por isso. A leitura dos autores que fizeram críticas à minha obra e ao ISEB é também merecedora de estima. Já tive a oportunidade de escrever que são os nossos adversários, adversários das nossas idéias, que fornecem o nosso verdadeiro perfil, justamente porque destacam o que não somos, o que é tão importante quanto o que somos. Respondo por isso com prazer ao questionário que acompanha a sua carta, ponto por ponto. Antes que me esqueça: o livro sobre populismo já foi encontrado e remete-lo-ei na próxima semana. Estou dependendo apens da pessoa que ficou de me trazer em casa exemplares desse livro. E vamos ao questionário.
1. O fato de autores da USP (só conheço um, aliás) me acusarem de seguir uma linha esquemática e estalinista não tem, para mim, a menor significação. Corresponde, apenas, a uma posição negativa que faz parte da luta ideológica. Nós, no ISEB, não postergávamos a luta de classes, absolutamente. O ISEB tinha vários professores e, conquanto, depois de grave crise, preponderasse ali uma linha marxista e nacionalista, a verdade é que ela comportava variantes. Alguns críticos, anti-isebianos por vários motivos, estavam mais à esquerda do que os isebianos, acusavam-nos, a nós do ISEB, de não sermos suficientemente esquerdistas. Acontece que eles, os críticos, não eram marxistas. Não fomos, pois, revisionistas, muito ao contrário. Voce pergunta: "Por que um marxista, num dado momento, deixa de pensar a luta de classes e sim uma aliança de classes". Ora, isso não deriva de desejos; deriva da realidade. Corresponde à necessidade de estabelecer aliança com uma classe para derrotar a outra, aquela que, na fase é, é a principal inimiga. Isso acontece com frequência na História e não depende apenas da vontade das pessoas.
2. Como conciliávamos, no ISEB, eu e os companheiros, a questão da luta de classes com a aliança com a burguesia nacional, naquela fase para enfrentar o imperialismo? O inimigo principal era o imperialismo. Os nossos críticos desejavam que, por fidelidade a um princípio teórico, abandonássemos a luta ou nos isolássemos. Havia, na burguesia nacional, contradições com o imperialismo. Isso nos aproximava dela; ou, antes, ela se aproximava de nós. Não me recordo das colocações do companheiro que escreveu Consciência e realidade nacional, livro importante que precisa ser lido com senso crítico. Claro está que jamais entendemos a aliança como esquecimento de que há uma exploração do trabalho, luta de classes. A aliança da fase não importava em ignorar isso ou negar.
3. Temos, realmente, a mais retrógrada burguesia, na História. Isso, entretanto, não importa em negar, na sua parcela nacional, contradições com o imperialismo, que é um dado da realidade. Enquanto ela aceita tais contradições, tem condições de lutar com o trabalhador, não para estabelecer o socialismo, mas para enfrentar, transitoriamente, um inimigo comum.
4. Sempre pensei que as teorias que defendi, na teoria e na prática, eram, e são aplicáveis a todos os povos latino explorados do mundo, particularmente aos latino-americanos.
5. O Fascismo cotidiano é um livro, editado em São Paulo, em 1990, pela editora Oficina de Livros (Av. Brigadeiro Luiz Antonio, 469, s. 83, cep 01317-001, São Paulo).
6. Não tenho notícias de recentes comentários, resenhas ou críticas ao meu livro Formação histórica do brasil. Isto faz parte da política de abafar pelo silêncio, usual entre nós, na luta ideológica.
7. Não tive formação universitária em História. Sou, nela, um autodidata. No meu tempo, não existiam estudos universitários de História. Não havia faculdades de Filosofia, nem mesmo Universidades, nem Institutos de Letras. E a vida militar, depois, me impediu que, mesmo adulto ou velho, me matriculasse nas que apareceram. Os de formação acadêmica me criticam e alegam essa ausência de diploma para me negar. Na verdade, o ensino de História, nas Universidades, está muito distante daquilo que eu aceito como História. É uma forma de alienação. Já dei cursos em diversas Universidades, cursos avultos. Nunca exerci a cátedra universitária, nem desejo exercê-la.
É o que me acode para responder aos quesitos propostos. Fico ao seu dispor para mais. Um abraço ao Pedro, Outro em voce do
Nelson Werneck Sodré
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Nelson Werneck Sodré critica o ensino de História em Ponta Grossa
Rio, 22.03.93
Prezado Acir da Cruz Camargo, saúde e paz.
Ausente do Rio por mais de mês, encontrei, de volta, a sua carta de 04 do corrente. Esta a razão da demora em respondê-la. Vamos, ponto por ponto.
Ainda não lhe enviei a relação dos meus livros publicados porque ela consta de um deles e precisa ser atualisada. Logo a terá em mãos.
Quanto às afirmações do professor a que se refere, refletem a sua mentalidade. Afirmar que a tese do feudalismo no Brasil foi por mim esposada por imposição do PCB não é apenas uma inverdade, é uma calúnia, costumeira na boca de pessoas do quilate desse que "ensina" História em Ponta Grossa. Também é clamorosa inverdade a afirmação de que me retratei da idéia da existência de feudalismo no Brasil. É outra mentira vulgar, agora deslavada porque ultrapassa o nível da simples opinião para mencionar um fato inexistente. Agora a sua pergunta: nao revi a afirmação de que o movimento de 1930 foi parte da revolução burguesa no Brasil. Ela está de pé em meu trabalho Capitalismo e revolução burguesa no Brasil, editado pela Oficina de Livros, S. Paulo.
Um abraço do amigo,
Nelson Werneck Sodré
Prezado Acir da Cruz Camargo, saúde e paz.
Ausente do Rio por mais de mês, encontrei, de volta, a sua carta de 04 do corrente. Esta a razão da demora em respondê-la. Vamos, ponto por ponto.
Ainda não lhe enviei a relação dos meus livros publicados porque ela consta de um deles e precisa ser atualisada. Logo a terá em mãos.
Quanto às afirmações do professor a que se refere, refletem a sua mentalidade. Afirmar que a tese do feudalismo no Brasil foi por mim esposada por imposição do PCB não é apenas uma inverdade, é uma calúnia, costumeira na boca de pessoas do quilate desse que "ensina" História em Ponta Grossa. Também é clamorosa inverdade a afirmação de que me retratei da idéia da existência de feudalismo no Brasil. É outra mentira vulgar, agora deslavada porque ultrapassa o nível da simples opinião para mencionar um fato inexistente. Agora a sua pergunta: nao revi a afirmação de que o movimento de 1930 foi parte da revolução burguesa no Brasil. Ela está de pé em meu trabalho Capitalismo e revolução burguesa no Brasil, editado pela Oficina de Livros, S. Paulo.
Um abraço do amigo,
Nelson Werneck Sodré
quinta-feira, 16 de junho de 2011
História política de Ponta Grossa - para um cientista social - 2ª parte
Relações entre jornalistas e mundo político
Nelson Werneck Sodré afirma que tudo é política. Só a ingenuidade sustentaria a inexistência de cumplicidade ideológica entre jornais, política e políticos. Isso se funda nas relações de poder e no processo histórico. Há, evidente, o egocentrismo de uns, medos de todos, ideologia e razões econômicas, fatores que determinam a o modo de produção da notícia e do diversionismo midiático.
Em Ponta Grossa, mundo político e jornais impressos, sempre estiveram afinados num mesmo discurso e sustentando esse único projeto social da classe historicamente dominante. Valendo da falta de acesso da maioria do povo aos bens educacionais e da cultura, a confusão conceitual acentuada em uma população desescolarizada como a nossa, destituída de condições psicológicas para proceder com pensamento crítico, de vez em quando sinalizam alguma divergência menor, algum contraponto, capaz de manter ares de moralismo. O que a população não alcança nem tem condições de encontrar é onde está a essência da suposta falta de sintonia. No campo das idéias políticas, é criminosa a tentativa de se estabelecer falsas diferenças entre os projetos político-sociais de Jocelito Canto, Péricles de Mello ou Plauto Miró Guimarães. A imprensa, porque numa sociedade de classes, toma a posição que lhe corresponde às conveniências, deu a impressão de que tais diferenças haviam e eram acentuadas. Editores-Chefes e proprietários tem notório comprometimento, e só a leitura atenta e demorada do interior dos periódicos o demonstrará, comm as fantasias e moralidades falsas da burguesia e dos senhores de terra, que lhes propiciam investimento em publicidade. Uma dificuldade dos jornais nos países sob o signo do capitalismo. O tratamento com Jocelito, candidato a prefeito, oscilou entre o moralismo da região, do tipo, forasteiro aqui não tem vez e direito e o carisma que o rádio e naturalidade com que se comunica com a população abandonada pela classe dominante lhe diplomam.
A contribuição dos Psicólogos na interpretação dos personagens no palco da política está por ser feita. São doutores em egocentismo, verdadeira patologia. Necessitam de veneração, endeusamento e tratamento mitológico. A imprensa escrita e televisiva lhes proporciona essa terapia danosa ao povo. Serão vistos sempre nas colunas sociais, comentados em matérias sensacionalistas, sobre seus pronunciamentos dignos de destaque. No frigir dos ovos, coisa para inglês ver, eles e o que dizem, ond estão importância social alguma tem. E sabem todos disto. Os jornais prestam-lhes este favor, e não totalmente de graça, empresários da comunicação e equipe sempre que necessário, político mal comportado com a linha editorial, recebe claro sinal de demonstração de força. Ao político cabe a boa missão de ler corretamente a cartilha do liberalismo econômico e filosófico, bom mocismo, rigorosamente inserido na linha ideológica do jornal. Os políticos não querem conpuscar essa imagem. O jornal, com certeza, tem boa tiragem e será lido pela classe média, pelos estudantes, servirá de base para os noticiários capengas do rádio e da televisão. O jornal se fundamenta numa ideologia não popular, sua base teórica é frágil, mas tem e pode ter uma coisa que o político não possue, opinião.
Então o político estabelece relações de boa vizinhança com as empresas jornalísticas, que despejam diariamente longas admoestações que beiram a religião, à classe política.
Se não há uma cumplicidade aberta e pessoal, há atrelamento teórico entre ambos, jornal, sistemático e objetivo em seu discurso sempre mais que o próprio politico da ideologia.
quarta-feira, 15 de junho de 2011
História política de Ponta Grossa - para um cientista social
Em 1992 Ponta Grossa teve quatro candidatos disputando a Prefeitura. Nesse cenário político, representaram as forças tradicionais, conservadoras, defensoras dos senhores de terra e do empresariado, Adail Inglês, Djalma de Almeida Cesar e Paulo Cunha Nascimento. Não se deve estabelecer diferenças ideológicas entre eles, representavam mínimas e insignificantes fracções da camada social dominante. A candidatura de oposição a esse projeto continuista, reprodutivista, autêntica, estava encarnada na pessoa e na participação do Padre Roque e do líder comunitário, Giba. A questão maior, o problema posto, era de que o estabelecimento dessa candidatura esbarrava na forte estrutura financeira, no domínio cultural, no forte e resistente arsenal midiático que dispunham as forças do atraso e não apenas nisso. Havia sintomática resistência dentro do próprio Partido dos Trabalhadores, que capitaneava o conjunto das forças progressistas. Um grupo simpático a Péricles de Mello não emprestava apoio e empenho à divulgação. Questiúnculas de pequenez moral, mas que fortaleciam a situação, além da ciumeira interna e medo externo, que sempre seguiu a nossa história, a participação do povo no poder.
A luta ideológica era notável e acirrada. A nível nacional entráramos, a pouco tempo, na fase adentráramos ao universo conhecido como neoliberalismo. Jornais e emissoras de rádio e televisão saudavam a era Collor, o fim do socialismo e das forças trabalhistas no mundo inteiro. Substituindo Fernando Collor de Mello, Itamar Franco chegou a surpreender a nação, adotando políticas nacionalistas em alguns aspectos. A reação procurou motivo para a ridicularização e crítica apoiando-se em seu estilo físico. O nosso entusiasmo seguiu no governo de Fernando Henrique Cardoso.
Em Ponta Grossa os debates políticos foram acirrados. Parcela da juventude encampou, orientada pela liderança do DCE, o movimento para a derrubada de Collor de Mello. A universidade, até então imóvel e aprisionado no conservadorismo, dominada pela geração antiga e simpática ao regime ditatorial, pelas forças das circunstâncias, se tornara o centro capitaneador dos debates e em seus cursos se incluiam esses problemas e temas pautados pela luta política e social, como parte dos projetos de pesquisa a extensão. Os cursos retomava, com vigor, a discussão do pensamento de Paulo Freire e do ISEB, de Nelson Werneck Sodré e Álvaro Vieira Pinto, Vigotsky, Dermeval Saviani, Moacir Gadotti e Vanilda Paiva. Paulo Freire tinha a preponderância. Jornalismo, História, Pedagogia e Serviço Social se engajaram, foram às vilas longínquas do centro, levar projetos de alfabetização e cidadania à luz do método Paulo Freire. Fica no registro o movimento de alfabetização Reconstruindo o mundo, coordenado por Carmencita de Holleben Mello Ditzel, Jefferson Mainardes, Roque Zimmerman, Jussara Ayres Bourguinon, Zenilda Batista Bruginski e Vanessa Sabóia Zapia, alguns de relâmpaga participação. Até um projeto com meninos de rua foi desenvolvido, tendo a participação de Marilda Wosnika, não dos menores papéis. Este último funcionava nas dependências da Universidade e representava o idealismo de Carmencita. O marxismo alcançava estatus nas concepções filosóficas de diversas graduações e isso incomodava os professores reacionários e a imprensa, sempre conservadora.
Esse ano (1992) foi o mais rico em debate políticos e sociais. Nos parecia que a cultura ressurgira nos Campos Gerais. Em suas reuniões, o PT, cheio da presença de populares, líderes de bairros, dedicava espaços longos à discussão sobre o socialismo, das posições diferenciadas das tendências em relação ao tema. O PT também reunia pessoas inclinadas a outros partidos de esquerda. Os debates foram para o interior da universidade e nela receberam uma roupagem militante e acadêmica. Formava-se liderança pública. Isso não agradaria o espírito da época.
Em 1996 Jocelito, apoiado por fração das camadas dominantes venceria as eleições. A ofensiva reacionária que não alcançava o coração de uma população sofrida, sem remédios, sem moradia, sem recursos. Esgotaram-se os representantes dessas camadas tradicionais portavam um discurso moralista, distante do povo e pedante. Não foi difícil que povo caísse no colo de Jocelito, cuja ideologia e programa de governo, em nada diferenciava-se da classe dominante, tão somente obrigava o braço habilmente, caridoso com a parcela da população pobre, sem oferecer proposta de cidadania que lhe oportunizasse conscientização e crítica.
Jocelito chamou para si o preconceito e o ódio da classe dominante que levou junto de si todo o puritanismo da esquerda pontagrossense. A luta pessoal contra Jocelito colocou a perder um rico momento de debate de ideias e propostas progressistas.
A luta ideológica era notável e acirrada. A nível nacional entráramos, a pouco tempo, na fase adentráramos ao universo conhecido como neoliberalismo. Jornais e emissoras de rádio e televisão saudavam a era Collor, o fim do socialismo e das forças trabalhistas no mundo inteiro. Substituindo Fernando Collor de Mello, Itamar Franco chegou a surpreender a nação, adotando políticas nacionalistas em alguns aspectos. A reação procurou motivo para a ridicularização e crítica apoiando-se em seu estilo físico. O nosso entusiasmo seguiu no governo de Fernando Henrique Cardoso.
Em Ponta Grossa os debates políticos foram acirrados. Parcela da juventude encampou, orientada pela liderança do DCE, o movimento para a derrubada de Collor de Mello. A universidade, até então imóvel e aprisionado no conservadorismo, dominada pela geração antiga e simpática ao regime ditatorial, pelas forças das circunstâncias, se tornara o centro capitaneador dos debates e em seus cursos se incluiam esses problemas e temas pautados pela luta política e social, como parte dos projetos de pesquisa a extensão. Os cursos retomava, com vigor, a discussão do pensamento de Paulo Freire e do ISEB, de Nelson Werneck Sodré e Álvaro Vieira Pinto, Vigotsky, Dermeval Saviani, Moacir Gadotti e Vanilda Paiva. Paulo Freire tinha a preponderância. Jornalismo, História, Pedagogia e Serviço Social se engajaram, foram às vilas longínquas do centro, levar projetos de alfabetização e cidadania à luz do método Paulo Freire. Fica no registro o movimento de alfabetização Reconstruindo o mundo, coordenado por Carmencita de Holleben Mello Ditzel, Jefferson Mainardes, Roque Zimmerman, Jussara Ayres Bourguinon, Zenilda Batista Bruginski e Vanessa Sabóia Zapia, alguns de relâmpaga participação. Até um projeto com meninos de rua foi desenvolvido, tendo a participação de Marilda Wosnika, não dos menores papéis. Este último funcionava nas dependências da Universidade e representava o idealismo de Carmencita. O marxismo alcançava estatus nas concepções filosóficas de diversas graduações e isso incomodava os professores reacionários e a imprensa, sempre conservadora.
Esse ano (1992) foi o mais rico em debate políticos e sociais. Nos parecia que a cultura ressurgira nos Campos Gerais. Em suas reuniões, o PT, cheio da presença de populares, líderes de bairros, dedicava espaços longos à discussão sobre o socialismo, das posições diferenciadas das tendências em relação ao tema. O PT também reunia pessoas inclinadas a outros partidos de esquerda. Os debates foram para o interior da universidade e nela receberam uma roupagem militante e acadêmica. Formava-se liderança pública. Isso não agradaria o espírito da época.
Em 1996 Jocelito, apoiado por fração das camadas dominantes venceria as eleições. A ofensiva reacionária que não alcançava o coração de uma população sofrida, sem remédios, sem moradia, sem recursos. Esgotaram-se os representantes dessas camadas tradicionais portavam um discurso moralista, distante do povo e pedante. Não foi difícil que povo caísse no colo de Jocelito, cuja ideologia e programa de governo, em nada diferenciava-se da classe dominante, tão somente obrigava o braço habilmente, caridoso com a parcela da população pobre, sem oferecer proposta de cidadania que lhe oportunizasse conscientização e crítica.
Jocelito chamou para si o preconceito e o ódio da classe dominante que levou junto de si todo o puritanismo da esquerda pontagrossense. A luta pessoal contra Jocelito colocou a perder um rico momento de debate de ideias e propostas progressistas.
terça-feira, 14 de junho de 2011
História da Licenciatura na UEPG - 1990-1994 - Nelson Werneck Sodré
Em 1992, Pedro Ferreira de Freitas e eu, acadêmicos, viajamos ao Rio de Janeiro, para participar de um congresso da UNE. Naquele ano e naquele momento, o presidente Fernando Collor de Mello sofria pesada artilharia das forças populares. No Rio de Janeiro, participamos de uma passeata, com milhares de pessoas e estudantes que tentavam impedir o recebimento de Collor pelo governador Leonel Brizola. Mesmo sob nossos protestos, o amadurecimento e paradígma Brizola, com quem deveríamos aprender muito, recebeu o presidente da República. O governador via com cautela toda aquela movimentação de estudantes e intelectuais contra o presidente e reportava isto como semelhante ao final do Governo Vargas. Hoje, creio que Brizola tinha razão em parte.
Estando hospedados na UFRJ, munidos de um mapa da cidade, Pedro e eu, depois que comprei um exemplar de "Formação histórica do Brasil", saimos à procura de Nelson Werneck Sodré, isto no dia em que retornaríamos ao Paraná. Achamos fácil. Foi uma grande surpresa tudo o que aconteceu.
Chegamos na Rua Dona Mariana e entre os prédios e arvoredos, encontramos o apartamento de Nelson Werneck Sodré. Apertamos a campainha e uma bondosa senhora nos atendeu pela janela. Era Dona Yolanda Frugoli Sodré, esposa do General. Nos apresentamos como estudantes, paranaenses, de História que aproveitando o congresso da UNE, tínhamos curiosidade em conhecer Nelson Werneck Sodré. "Nossa! podem subir, desculpem, o Rio é muito violento, por isso perguntei quem eram e o que queriam. Chegamos da missa e Nelson está saindo do banho". Eu, fundamentalista ideológico, jamais imaginaria o escritor marxista vindo da missa. Não quiz perguntar. Me assustei apenas. Sentamos e enquanto Dona Yolanda nos fazia as cortesias, descia da escada, um homem de paletó escuro, óculos densos, de baixa estatura e fomos apresentados. Fiquei um pouco inquieto e Pedro sentou-se, feliz e honrado, entre eu e Nelson Werneck Sodré, mas não tínha assunto. Eu resolvi pedir respaldo dele a minha ferina espada e intransigência em defender seus escritos e também me munir de respostas aos seus detratores. Perguntei-lhe o que achava do conceito de populismo. Eu me cansava de ouvir essa expressão nas aulas do curso de História. Ainda não abandonaram essa mania. Nelson Werneck Sodré me respondeu que esse era um termo muito usual em ciências sociais e deveria me acostumar a ele. Mas deu uma definição bem próxima do alcance dos novatos estudantes universitários, sem gravador e sem caderno para fazer anotações. Populismo é quando um governante procura atender revindicações que, seriam por natureza, dever do povo formulá-las. O populismo, disse, não é de todo mal.
Então, disse a ele que lera e ficara indignado com o livro ISEB: fábrica de ideologias, de Caio Navarro de Toledo. Werneck Sodré me respondeu que conhecia bem o livro e que se tratava de uma das mais abalizadas críticas que recebera. Era um livro respeitável e recomendável. Eu não entendia como um escritor que, no livro História e materialismo histórico no Brasil, detonava Caio Navarro, aqui se mostrava um homem dócil, humilde, acadêmico no sentido verdadeiro do conceito. Enguli aquela.
Falamos sobre o PCB, o surgimento do PPS. Nelson Werneck Sodré apostava que um dia essas facções se uniriam por um projeto de Brasil, que encampasse o interesse do povo brasileiro. Perguntei se o marxismo estava mais resguardado no PCdoB. "É o que eles dizem" me respondeu. O Pedro lhe perguntou sobre o futuro de Cuba e da China. Sodré nos respondeu que a China tomava um caminho sadio e inteligente de manutenção do socialismo. Cuba, não sabia até quando duraria.
Era um homem apaixonado pela juventude, gostava de ver nosso interesse pela sua obra, não era um homem de linguagem pedante. Depois daquela visita, troquei correspondência com ele até seu falecimento. As cartas que lhe enviei estão de posse e direito da Biblioteca Nacional do Brasil. Com o livro autografado, a promessa dele em me enviar o livro "O populismo", publicado por um deputado do PDT, saímos de sua casa para a rodoviária do Rio de Janeiro.
Nelson Werneck Sodré pautaria, de vez, minha interpretação da história do Brasil, até hoje.
Estando hospedados na UFRJ, munidos de um mapa da cidade, Pedro e eu, depois que comprei um exemplar de "Formação histórica do Brasil", saimos à procura de Nelson Werneck Sodré, isto no dia em que retornaríamos ao Paraná. Achamos fácil. Foi uma grande surpresa tudo o que aconteceu.
Chegamos na Rua Dona Mariana e entre os prédios e arvoredos, encontramos o apartamento de Nelson Werneck Sodré. Apertamos a campainha e uma bondosa senhora nos atendeu pela janela. Era Dona Yolanda Frugoli Sodré, esposa do General. Nos apresentamos como estudantes, paranaenses, de História que aproveitando o congresso da UNE, tínhamos curiosidade em conhecer Nelson Werneck Sodré. "Nossa! podem subir, desculpem, o Rio é muito violento, por isso perguntei quem eram e o que queriam. Chegamos da missa e Nelson está saindo do banho". Eu, fundamentalista ideológico, jamais imaginaria o escritor marxista vindo da missa. Não quiz perguntar. Me assustei apenas. Sentamos e enquanto Dona Yolanda nos fazia as cortesias, descia da escada, um homem de paletó escuro, óculos densos, de baixa estatura e fomos apresentados. Fiquei um pouco inquieto e Pedro sentou-se, feliz e honrado, entre eu e Nelson Werneck Sodré, mas não tínha assunto. Eu resolvi pedir respaldo dele a minha ferina espada e intransigência em defender seus escritos e também me munir de respostas aos seus detratores. Perguntei-lhe o que achava do conceito de populismo. Eu me cansava de ouvir essa expressão nas aulas do curso de História. Ainda não abandonaram essa mania. Nelson Werneck Sodré me respondeu que esse era um termo muito usual em ciências sociais e deveria me acostumar a ele. Mas deu uma definição bem próxima do alcance dos novatos estudantes universitários, sem gravador e sem caderno para fazer anotações. Populismo é quando um governante procura atender revindicações que, seriam por natureza, dever do povo formulá-las. O populismo, disse, não é de todo mal.
Então, disse a ele que lera e ficara indignado com o livro ISEB: fábrica de ideologias, de Caio Navarro de Toledo. Werneck Sodré me respondeu que conhecia bem o livro e que se tratava de uma das mais abalizadas críticas que recebera. Era um livro respeitável e recomendável. Eu não entendia como um escritor que, no livro História e materialismo histórico no Brasil, detonava Caio Navarro, aqui se mostrava um homem dócil, humilde, acadêmico no sentido verdadeiro do conceito. Enguli aquela.
Falamos sobre o PCB, o surgimento do PPS. Nelson Werneck Sodré apostava que um dia essas facções se uniriam por um projeto de Brasil, que encampasse o interesse do povo brasileiro. Perguntei se o marxismo estava mais resguardado no PCdoB. "É o que eles dizem" me respondeu. O Pedro lhe perguntou sobre o futuro de Cuba e da China. Sodré nos respondeu que a China tomava um caminho sadio e inteligente de manutenção do socialismo. Cuba, não sabia até quando duraria.
Era um homem apaixonado pela juventude, gostava de ver nosso interesse pela sua obra, não era um homem de linguagem pedante. Depois daquela visita, troquei correspondência com ele até seu falecimento. As cartas que lhe enviei estão de posse e direito da Biblioteca Nacional do Brasil. Com o livro autografado, a promessa dele em me enviar o livro "O populismo", publicado por um deputado do PDT, saímos de sua casa para a rodoviária do Rio de Janeiro.
Nelson Werneck Sodré pautaria, de vez, minha interpretação da história do Brasil, até hoje.
História da Licenciatura na UEPG - Ivan Meneguzzo
O mestre Ivan Meneguzzo, brasileiro e professor
Em 24 de abril de 2009 falecia o Professor Ivan Meneguzzo. A História registrará a contribuição Meneguzzo como professor exemplar que pensou com seus alunos a cultura nacional, o amor ao povo brasileiro. Patriota ardoroso no combate às injustiças sociais pela via do trabalhismo. Um desenvolvimento brasileiro que proporcionasse aos excluídos, oportunidades de trabalho, dignidade e legislação protetora. A revolução brasileira de 1930 era seu tema predileto e o ministrava com a alma. Aqueles que se graduaram tendo sido seus alunos, receberam dele o exemplo das aulas bem ministradas, com conteúdo e sentido. Aquilo que falava e transmitia era útil e necessário ao aprimoramento intelectual e a cidadania. Suas exposições despertavam um amor indescritível pelo Brasil raramente encontrado na Universidade. Era dedicado, cumpridor de horários, educador exemplar. A marca de suas aulas era transformar temas e conceitos complexos e conteúdo inteligível, fugindo sempre do pedantismo comum dos modismos teóricos. Ivan Meneguzzo está na dissertação de Célia Regina de Souza e Silva. A coragem intelectual e a posição nacionalista firme lhe garantiram a vantagem de não compor guetos ideológicos e a independência no ensino. Não foi o mestre de somente longas bibliografias, mas de reflexão profunda, autêntica e original. O texto fotocopiado era objeto de longas discussões, detalhadas, ardorosas, voltadas à realidade brasileira. O esquerdismo, antinacionalismo acadêmico se tornaram adversos à prática do Mestre privando a cidade da sua contribuição sociológica. Imprimiu em EPB (Estudos de Problemas Brasileiros) uma face crítica, contextualizada e progressista, então resquício do regime militar. Sofreu calado, por educação, com o avanço da ofensiva reacionária nos conteúdos de História, teorética que nada diziam à população. O posmodernismo varria, para o desencanto das forças progressistas, os currículos de Ciências Humanas. Era educador modelar, ensinava de verdade. Diferenciou-se pela ausência de vaidades peculiares da academia, pelo brilho e rigor, da posição política justa e pública. Trabalhismo e marxismo eram coisas próprias do fim da História. Ocupar-se do legado de Vargas, João Goulart, Leonel Brizola fora do discriminador conceito de populismo não seria considerado científico nem próprio da universidade. Dominava com tranqüilidade temas da área econômica, teoria política, História e comunicacional, fazendo abalisadas análises da mídia em suas aulas, tendo mais tarde, atuado no radio esportivo. Navegava no marxismo com independência, crítica e sem aplicações vaidosas. Militava na revisão da História Brasileira, defendendo a busca de fontes variadas e ao lugar da história dos vencidos, mas não consentiam com um desmonte irresponsável da História do Brasil. Era possuído de cautela com a encantanda desmitologização historiográfica que jogava as referências nacionais no lixo. Não lhe importava a ostentação ideológica, mas a conduta de um professor que ensinava e vivia a importância do seu país. Mesmo assim são contundentes exemplos dessas convicções, o nome de Sandino dado ao filho, homenageando o líder revolucionário nicaráguense. Nossas autoridades educacionais honrariam o zelo cidadão ao distinguirem uma próxima escola pública aberta com o nome de Ivan Meneguzzo.
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